segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Seu voto vai pra quem você votou?

Já ouvi histórias de candidatos que não tiveram sequer o voto em si computados, e não estou falando de candidaturas impugnadas, na primeira eleição do Lula, lembro que quando acompanhava a apuração a primeira contagem no TSE, rapidamente escondida, apareceu o Lula com um número negativos de votos... Sinceramente, um sistema que não permite recontagem de votos em caso de dúvidas é no mínimo assustador...

E para mostrar que as duvidas existem reproduzo texto de Silvio Meira, na Terra Magazine... original em http://smeira.blog.terra.com.br/2008/09/08/eleicoes-tse-esconde-a-verdade-sobre-as-urnas

eleições: TSE esconde a verdade sobre as urnas
srlm às 08:18

nas últimas semanas, este blog publicou dois textos sobre a segurança das urnas eletrônicas e, conseqüentemente, sobre a segurança de todo o processo eleitoral brasileiro. no primeiro [urna eletrônica NÃO é inviolável], um especialista anônimo [cognominado frodo] desmontou a afirmação do presidente do TSE, que havia dito ao país exatamente o contrário do título do nosso texto. no segundo [câmara dos deputados duvida da segurança das urnas eletrônicas] mostramos os dois opostos da política nacional, pt e psdb, concordando que o processo eleitoral precisa de mais segurança e transparência.

neste episódio, começamos a publicar uma entrevista com o engenheiro amílcar brunazo filho, que estuda o problema de segurança de voto eletrônico desde 1996 e que muita gente pensou [o blog recebeu vários emeios sobre isso…] que fosse a verdadeira identidade de frodo. mas não é. brunazo é um técnico que conhece o processo eleitoral eletrônico por dentro por dentro e afirma, há tempos, que sua segurança absoluta é mais propaganda do que realidade. comparativamente, as urnas e o sistema usados na venezuela, em 2006, já eram muito mais seguros do que o atual sistema brasileiro.

amilcar brunazo filho, engenheiro e programador, acompanha desde 2000 o desenvolvimento do sistema eleitoral eletrônico como representante do PDT junto ao TSE. colaborou com o TSE com sugestões que foram incorporadas ao processo eleitoral por lei ou resolução, como a obrigação do teste de votação paralela, a abertura dos programas feitos pela ABIN, a adoção de sistema operacional aberto nas urnas eletrônicas, a permissão para conferência das assinaturas digitais dos sistemas pelos partidos políticos e a publicação dos resultados por seção eleitoral na internet. também acompanhou processos e perícias oficiais sobre urnas eletrônicas, tendo detectado as quebras de integridade dos logs nas urnas de alagoas em 2006. o texto completo de seu livro "fraude e defesas no voto eletrônico" [que está esgotado] pode ser baixado neste link. brunazo filho é um dos especialistas por trás do site www.votoseguro.org.

a seguir, a primeira das perguntas que fizemos [por emeio] a brunazo filho e sua resposta.

blog: o TSE contratou uma consultoria para avaliar a urna eletrônica ou o sistema eleitoral como um todo? a quem e quando? no que resultou tal esforço, até agora? há resultados a divulgar? se sim, porque o TSE ainda não os apresentou à população?

Sim, em maio de 2008 firmou-se o Contrato TSE 032/2008 com a Fundação de Apoio à Capacitação de Tecnologia da Informação - FACTI - e o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer - CenPRA - com o objeto formal de elaboração e análise de testes de vulnerabilidade quanto à segurança do sistema eletrônico de votação. O CenPRA e a FACTI são entidades ligadas ao Ministério de Ciência e Tecnologia e foram chamadas para estudar e testar a segurança e confiabilidade das nossas urnas eletrônicas.

O motivo inicial que levou a esta contratação foi uma petição de 2006, do PT e do PDT e com adesão do PR, que solicitava permissão para efetuar testes de resistência a ataques, chamados Testes de Penetração, nas urnas eletrônicas. O segundo motivo foi a vontade do TSE manter restrito o conhecimento do resultado do teste, pois se permitisse o teste pelos partidos, os resultados ganhariam conhecimento público.

O contrato tem data final para dezembro de 2008 e prevê a apresentação de relatórios de análises e testes dos procedimentos de: a) Geração de Mídias (preparação dos cartões de memória que transportam os programas oficiais até as urnas eletrônicas); b) Carga e Lacração das urnas; c) Votação e Apuração, até a emissão dos disquetes com os resultados de cada urna.

Até o momento (setembro de 2008) fui informado de que existem dois relatórios parciais, a partir dos quais modificações nos procedimentos e nos programas das urnas já estão sendo implantados. Por força de lei, o TSE mantem desde abril um ambiente controlado para apresentação obrigatória dos sistemas às entidades autorizadas, no qual só se pode entrar sob compromisso assinado de sigilo.

Neste local, como representante de um partido político, solicitei a apresentação dos relatórios da FACTI, que a rigor foram produzidos por causa de nossa petição inicial. O pedido já foi negado pelo Diretor Geral e pelo Ministro-relator, com alegações banais sobre a formalidade, sem enfrentarem seu mérito, o da transparência do processo eleitoral.

Mas o fato é que os relatórios parciais do FACTI apontam tantas vulnerabilidades insanáveis, desde a Geração de Mídias até a gravação do disquete, que o TSE decidiu: 1) manter os relatórios totalmente secretos para impedir que o eleitor brasileiro saiba que o sistema possui vulnerabilidades; 2) impedir os testes de penetração solicitados em 2006 pelos partidos políticos; 3) abandonar, após as eleições de 2008, o projeto atual das urnas eletrônicas; 4) aditar o contrato FACTI/CenPRA para tentar desenvolver um novo projeto, de urnas eletrônicas mais confiáveis, para as eleições de 2010 e 5) desinformar o eleitor, negando em público a existência de falhas de segurança e afirmando que testes de penetração serão permitidos em 2008. Para saber mais, clique neste link .

Enfim, o TSE já obteve, da FACTI/CenPRA, a confirmação de que uma parte muito importante de seu sistema eleitoral, a urna eletrônica, possui brechas de segurança que podem ser exploradas de forma maliciosa e capaz de alterar o resultado da eleição, mas continua, oficialmente, negando a dura realidade dos fatos e repetindo que o sistema eleitoral que oferece à sociedade é seguro e inviolável, quando sabe muito bem que este não é o caso.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Que país é esse?

Inacreditável, copio integralmente postagem do blog do Josias...

SEM COMENTÁRIOS!!!!!


Para ir direto na fonte, clique aqui.

"O governo escolheu a dedo o substituto de Paulo Lacerda na Abin. Chama-se Wilson Trezza.

Deve-se à repórter Fernanda Odilla (só para assinantes da Folha) a revelação de que Trezza já trabalhou para Daniel Dantas.

Sim, exatamente, ele mesmo: o suspeito-geral da República, preso e solto duas vezes na Operação Satiagraha.

Entre fevereiro de 2002 e março de 2003, o novo mandachuva da Abin bateu ponto na Fundação Brtprev. Era diretor de Seguridade.

Geria os planos de benefícios dos colaboradores da Brasil Telecom, empresa submetida à época ao controle de Daniel Dantas.

"Não me relacionava com ele", diz Trezza, um oficial de inteligência, que ingressou na atividade de informação em 1981, no velho SNI.

Antes de ser contratado pela Brtprev, Trezza passara uma década distante do SNI e da sucessora Abin. Nesse período, servira ao governo FHC.

Primeiro como secretário de Previdência Complementar do Ministério da Previdência.

Depois como diretor administrativo do Ministério da Educação, sob o hoje deputado Paulo Renato (PSDB-SP).

E 2003, depois da passagem pelo braço previdenciário da Brasil Telecom, Trezza voltou à Abin.

Agora, é assediado pelo desafio de identificar os responsáveis pelo “grampogate”.

Entre as hipóteses sob investigação há uma suspeita levantada por Jorge Félix.

O general, superior hierárquico de Trezza, disse e repetiu, em privado, que o grampo que vitimou Gilmar Mendes pode ter sido uma encomenda de Daniel Dantas, o ex-patrão do novo diretor da Abin.

Responda rápido: é possível dormir com um barulho desses?"

PS.: Como diria Renato Russo e Cia.: Que país é esse?

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

E o Evo...

Um bom texto sobre a situação da Bolívia...

BOLÍVIA: À ESQUERDA, NÃO BASTA GANHAR ELEIÇÕES!

Ivan Pinheiro (*)


Evo Morales foi consagrado em meio ao seu mandato, em referendo convocado por ele próprio, com 67% dos votos, ou seja, 14% a mais do que quando foi eleito Presidente, em 2005 (53%).

Até na Meia Lua, onde viceja o separatismo, Evo dividiu o eleitorado: ganhou em Pando, empatou em Tarija e perdeu de pouco em Beni e Santa Cruz de la Sierra. Do total de nove Departamentos (Estados) da Bolívia, ganhou em sete. Mesmo nos dois em que perdeu, teve mais votos que em 2005. Em La Paz que, junto com El Alto, tem um terço do eleitorado nacional, Evo Morales teve 83% dos votos.

Dois prefeitos (governadores) de Departamento tiveram seus mandatos revogados (La Paz e Cochabamba), ambos da direita. Os dois únicos prefeitos do MAS (partido de Evo) foram confirmados (Oruro e Potosi). Por outro lado, foram também confirmados os quatro prefeitos de direita da "Meia Lua" (Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija), que implantam o "autonomismo", eufemismo para disfarçar o movimento separatista, dirigido e financiado pelo imperialismo.

O nono Departamento (Chuquisaca, que tem Sucre como capital) só votou com relação ao mandato presidencial, pois a Prefeita (oposição moderada) havia sido empossada pouco antes do referendo de 10 de agosto, em função da cassação do titular. Mesmo com a insatisfação em Sucre, que se reivindica capital do país, Morales ganhou em Chuquisaca com 54%.

O resultado do referendo é mais uma prova da manipulação da mídia burguesa mundial. Quem imaginaria que o Presidente boliviano teria mais de dois terços de confiança popular? Que em Santa Cruz (que hegemoniza o separatismo), Evo teria 44% de votos favoráveis? Lembram-se do inconstitucional "referendo autonômico" (não reconhecido pelo órgão eleitoral nacional da Bolívia), em que o prefeito de lá anunciou 80% de votos pela autonomia, num processo de votação e apuração que não contou com fiscalização do lado contrário nem com observadores internacionais?

A manipulação foi escandalosa como sempre. A impressão era de que o Presidente estava isolado, espremido entre a esquerda e a direita. Aliás, a direita se aproveitou bem do erro tático da histórica, unitária e combativa COB (Central Obrera Boliviana), que puxou uma greve justa por uma reivindicação justa, só que na hora errada (às vésperas do referendo), abrindo espaço para que setores sectários minoritários recorressem a formas de luta inadequadas para a ocasião (destruição de pontes com dinamite, para bloqueio da rodovia que cruza o país). Conseguiram dois cadáveres para agitar "Fora Evo assassino", com ampla cobertura da mídia burguesa.

Por incrível que pareça, esses setores, supostamente ultra-esquerdistas, pregavam o "voto castigo" em Evo, sob a bandeira "Nem Evo nem oligarquia". Oportunistas, votaram para revogar o mandato do Presidente, para se apresentarem como alternativa em uma nova eleição!

As oligarquias fizeram um show midiático em torno da "greve de fome cívica" na Meia Lua, em que saudáveis jovens pequeno-burgueses se deitavam teatralmente em tendas durante o dia - assistindo as Olimpíadas na televisão – descansando da farra da madrugada, em que se alimentavam, bebiam, namoravam e se divertiam.

A Unión Juvenil Cruceña (de Santa Cruz), vanguarda violenta da direita racista e separatista, não permitiu que Evo e Alvaro Lineira (Vice-Presidente) fizessem campanha pessoalmente na Meia Lua, bloqueando rodovias e pistas de aeroportos. Todas essas ações, divulgadas como manifestações populares, foram promovidas pelos mesmos jovens fascistas cruceños, financiados pela embaixada norte-americana, prefeituras locais e mesadas de papais e vovôs. Profissionalizados, movimentam-se por toda a Meia Lua. Não foi à toa que os ilegais "referendos autonômicos" promovidos na região se deram em dias diferentes, para que esses arruaceiros pudessem estar em todos, agredindo e intimidando a população proletária, especialmente indígena, para não votar.

A revogação do mandato dos dois prefeitos de direita, em departamentos importantes (La Paz e Cochabamba), onde Evo venceu esmagadoramente, será um ganho para o governo, que em breve deverá eleger seus candidatos à eleição complementar. Como foi eleito Presidente, em 2005, mais pelos povos originários e movimentos sociais do que por estrutura partidária, até agora Morales só tinha dois Prefeitos aliados (Potosi e Oruro).

Com a vitória no referendo de 10 de agosto, desmontou-se um provável golpe de direita que estava em curso e que poderia ter sido retomado logo após o anúncio dos primeiros resultados, se negativos para o governo. O Presidente saiu fortalecido. Melhorou seu posicionamento para enfrentar o imperialismo e a oligarquia. Desmoralizou-se a manipulação da mídia burguesa, que o vinha caracterizando como isolado, física e politicamente, espremido entre a esquerda e a direita. A partir de agora, o Presidente fala mais grosso.

Mas, na luta de classes, não há espaço para ilusões. A direita manteve suas cidadelas na Meia Lua, o que não retira o separatismo da ordem do dia. A confirmação dos seus prefeitos – mesmo que com votação bem abaixo do esperado por eles – permite a difusão de uma versão do resultado, com um discurso de que houve um empate. Não deixam de ter alguma base para isso. Afinal, a Meia Lua oriental, de maioria branca, onde estão a pecuária e os hidrocarbonetos (petróleo e gás), representa 45% do PIB boliviano e mais de um terço do território e da população do país.

Manipulando o resultado das urnas, a oligarquia medialunense radicaliza após o referendo. Convoca lockout, com nome de "greve cívica". Em Santa Cruz, aplicam os "estatutos autonômicos", inspirados na Constituição do Kosovo, enclave que virou país, artificialmente criado sob o comando do atual embaixador norte-americano na Bolívia. Ao arrepio da Constituição Federal, legislam sobre eleições, organização de poderes, economia (incluindo exportação e tributos), criação de instituições locais (até polícia própria); arvoram-se em nomear unilateralmente autoridades para as repartições federais no Departamento.

O Presidente tem agora mais fôlego e peso político para enfrentar em melhores condições os temas da conjuntura, como a Lei de Pensões, o IDH (Imposto Direto sobre Hidrocarbonetos), a nova Constituição, o separatismo, o tema da capital do país. Tem o direito e o dever de se locomover para qualquer parte do país, enfrentando, com a segurança necessária, as agressões e obstruções que a direita continuará a praticar. Tem mais legitimidade e autoridade até para negociar com Departamentos, o que não for questão de princípio, a partir de uma posição mais forte.

A agenda boliviana nos próximos meses vai ser marcada por dois temas que se imbricam: as autonomias departamentais e o referendo sobre a nova Constituição, já redigida e aprovada pela Assembléia Constituinte específica há um ano. A direita fará de tudo para evitar este referendo, pois a nova Constituição vem para consolidar e avançar mudanças progressistas.

A continuidade e o avanço do atual processo de mudanças – bem definido como uma revolução democrática e cultural – e a possibilidade de ele vir a assumir um caráter socialista vão depender principalmente da correlação de forças, do nível de consciência, organização e mobilização das massas populares, sobretudo da unidade operário-camponesa. Mas vai depender também da vontade política de Evo Morales, de seu governo e de seu partido (MAS), ou seja, vai depender do que o dirigente do Partido Comunista Boliviano (sigla homônima do nosso PCB), Marcos Domich, chama de "golpe do poder", ou seja, da determinação do governo de não conciliar mais com a violência dos grupos de direita e com o separatismo, de retomar o exercício do governo, de avançar em medidas para mitigar as injustiças sociais, assegurando terra aos camponeses e direitos aos trabalhadores. E, sobretudo, de convocar imediatamente o referendo popular para a aprovação da nova Constituição. O momento é este: a tendência é de nova vitória, por expressiva maioria.

Pelo que senti pessoalmente na Bolívia, isso é o que as massas populares esperam de Evo Morales: um governo para chamar de seu. Se o Presidente conciliar, ficará sem respaldo algum, nem dos oprimidos nem dos opressores. Ou renuncia ou cai, como um castelo de cartas. E se optar por avançar, como se espera, não nos iludamos. A radicalização vai aumentar até uma inevitável ruptura violenta, em que – mais do que a correlação de forças no terreno estritamente militar - os operários, camponeses e trabalhadores em geral podem fazer a diferença.

Na Bolívia de hoje, não há espaço para a conciliação de classe.

(*) Ivan Pinheiro, Secretário Geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), esteve em La Paz e Santa Cruz, antes, durante e depois do 10 de agosto.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Ossétia da onde?

A Geórgia atacou a Ossétia do Sul e tentou atacar a Abcássia, a Rússia respondeu rapidamente. Sinceramente, quem já tinha ouvido falar da Ossétia do Sul?

Mas falando sério dois interessantes artigos sobre a questão do Fiori e do Maierovitch:

GUERRA E PAZ

JOSÉ LUÍS FIORI

“A guerra nunca deflagra subitamente: a sua extensão não é obra de um instante”
Carl Von Clausewitz, Da Guerra, Martins Fontes,
São Paulo 1979 [1832] p: 77
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Os fatos mais recentes, e importantes, são conhecidos. No mês de abril de 2008, a última reunião de cúpula da OTAN, na cidade de Bucareste, reconheceu a aspiração da Geórgia de participar da aliança militar liderada pelos EUA, apesar da resistência alemã, e da oposição explícita do governo russo. E no dia 11 de julho de 2008, aviões da Força Aérea Russa sobrevoaram o território da Ossitéia do Sul, na véspera da vista à Geórgia, da secretária de estado norte-americana Condollezza Rice, para inaugurar, no dia 15 de julho, à operação “Resposta Imediata 2008”: um exercício militar conjunto do exército norte-americano, com as tropas da Geórgia, Ucrânia, Armênia e Azerbaijão, realizado na Base Aérea de Vaziani, que havia pertencido à Força Aérea Russa, até 2001. Logo em seguida, no dia 8 de agosto de 2008, as Forças Armadas da Geórgia atacaram a província da Ossétia do Sul, e conquistaram sua capital, Tskhinvali. Não está claro por quê a Geórgia atacou a Ossétia do Sul, exatamente no dia da inauguração das Olimpíadas chinesas. Mas não há dúvida que a grande surpresa dos governos envolvidos nesta história, foi a rapidez, extensão e eficácia da resposta russa, que em poucas horas, cercou, dividiu e atacou - por terra, mar e ar - o território da Geórgia, numa demonstração contundente, de decisão política, organização militar, e poder de conquista. Tudo feito com tamanha rapidez e agilidade que deixou os governos “ocidentais”, perplexos, divididos e impotentes, obrigados a acompanhar os desdobramentos da ofensiva russa, hora a hora, através de fatos consumados, sem conseguir saber ou poder antecipar o seu objetivo final.

Logo depois da Segunda Guerra Mundial, Hans Morgenthau, pai da teoria política internacional norte-americana, formulou uma tese muito simples e clássica, sobre a origem das guerras. Segundo Morghentau: “a permanência do status de subordinação dos países derrotados numa guerra, pode facilmente produzir a vontade destes países desfazerem a derrota e jogarem por terra o novo status quo internacional criado pelos vitoriosos, retomando seu antigo lugar na hierarquia do poder mundial. Ou seja, a política imperialista dos países vitoriosos tende a provocar uma política imperialista igual e contrária da parte dos derrotados. E se o derrotado não tiver sido arruinado para sempre, ele quererá retomar os territórios que perdeu, e se possível, ganhar ainda mais do que perdeu, na última guerra”¹. Em 1991, depois do fim da Guerra Fria, não houve um Acordo de Paz, que estabelecesse as perdas da URSS, e que definisse claramente as regras da nova ordem mundial, imposta pelos vitoriosos, como havia acontecido no fim da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais. De fato, a URSS não foi atacada, seu exército não foi destruído e seus governantes não foram punidos, mas durante toda a década de 90, os EUA e a UE apoiaram a autonomia dos países da antiga zona de influencia soviética, e promoveram ativamente o desmembramento do território russo. Começando pela Letônia, Estônia e Lituania, e seguindo pela Ucrânia, a Bielorússia, os Bálcãs, o Cáucaso e os países da Ásia Central. Neste período, os EUA também lideraram a expansão da OTAN, na direção do leste, contra a opinião de alguns países europeus. E mais recentemente, os EUA e a UE apoiaram a independência do Kosovo, aceleraram a instalação do seu “escudo anti-mísseis”, na Europa Central, e estão armando e treinando as forças armadas da Ucrânia, da Geórgia e dos países da Ásia Central, sem levar em conta que a maior parte destes países pertenceu ao território russo, durante os últimos três séculos. Em 1890, o Império Russo, construídono século XVIII, por Pedro o Grande e Catarina II, tinha 22.400.000 Km2 e 130 milhões de habitantes, era o segundo maior império contíguo da história da humanidade, e era uma da cinco maiores potencias da Europa. No século XX, durante o período soviético, o território russo se manteve do mesmo tamanho, a população chegou a 300 milhões de habitantes, e a Rússia se transformou na segunda maior potencia militar e econômica do mundo. Pois bem, hoje a Rússia tem 17.075.200 km 2 e apenas 152 milhões de habitantes, ou seja, em apenas uma década, a década de 1990, a Rússia perdeu cerca de 5 .000.000 km2 , e cerca de 140 milhões de habitantes,

A maior parte dos analistas internacionais que se dedicam a prever o futuro se esquecem – em geral - que os grandes vitoriosos de 1991, não foram apenas os EUA, foram os EUA, a Alemanha e a China. Numa virada histórica onde só houve um grande derrotado, a URSS, cuja destruição trouxe de volta ao cenário internacional, uma Rússia mutilada e ressentida A Alemanha e a China ainda tomarão muitos anos para “digerir” os novos territórios e zonas de influencia que conquistaram, nas últimas décadas, na Europa Central e no Sudeste Asiático. Enquanto isto, o desaparecimento da União Soviética colocou a Rússia na condição de uma potencia derrotada, que perdeu um quarto do seu território, e metade de sua população, mas que ainda mantém de pé o seu armamento atômico, e o seu potencial militar e econômico, junto com uma decisão cada vez explícita “de desfazer a derrota, e jogar por terra o novo status quo internacional criado pelos vitoriosos (em 1991), retomando seu lugar na hierarquia do poder mundial”. Por isto, neste início do século XXI, a Rússia é um desafio e uma incógnita, para os dirigentes de Bruxelas e de Washington e para os comandantes militares da OTAN. Quando na verdade, o mistério não é tão grande, e se Hans Morghentau estiver com a razão, se trata de um segredo de Polichinelo: a Rússia foi a grande perdedora da década de 90, e ao contrário do que diz o senso comum, será a grande questionadora da nova ordem mundial, qualquer que ela seja, até que lhe devolvam - ou ela retome - o seu velho território, conquistado por Pedro o Grande e Catarina II. Por isso, a atual guerra na Geórgia não é uma guerra antiga, pelo contrário, é um anúncio do futuro.

¹. Morgenthau, H.J. (1993) [1948]. Politics Among Nations, The Struggle for Power and Peace, Mc Graw, New York, p:66


12/08/2008

Geórgia: presidente russo, a pedido do francês Sarkozy, concede trégua condicionada.



O presidente russo, Dimitri Medvedev, por instancias do francês Nicolas Sarkozy, ordenou um período de trégua e espera que o georgiano, Mikhail Saakashvili, aceite seis condições, ainda não reveladas. Sarkosy anunciou partida imediata a Tbilisi a fim de conversar com o presidente da Geórgia.

Para analistas europeus, o presidente da Geórgia meteu-se numa aventura temerária ao invadir a Ossétia e, para eles, não deve ter agido sem um sinal verde dos EUA.

A propósito, o ex-presidente Mikhail Gorbachev, já ganhador do Nobel da paz, sustenta que os EUA sabiam da pretensão de a Geórgia invadir a Ossétia do Sul.

Para Gorbachev, o governo Bush apoiou a ação militar georgiana de invadir a Ossétia do Sul e o governo russo reagiu de forma adequada: - “As ações da Rússia foram inteiramente adequadas, ao contrário se pode afirmar das reações do Ocidente”.

Segundo Gorbachev, “sem apoio dos EUA, Tbilisi (capital da Geórgia) não teria se arriscado a começar uma guerra na Ossétia do Sul”.

O certo é que o presidente da Geórgia, há alguns meses, vinha provocando a Rússia, que estabeleceu, de fato, um protetorado na Ossétia e na Abcazia. Nessa última região, tem até um uma linha imaginária de fronteira. E por incrível funciona um “posto de fronteira”, com georgianos a controlar a saída e líderes separatistas da Ossétia a autprizar, com apoio russo, a entrada, num território onde cerca de 90% dos membros da etnia ossétia adotaram a cidadania russa. Como se percebe, de fato, já existe uma desvinculação da Geórgia.

A aventura do presidente georgiano, com o trapalhão Bush em apoio, durou exatos seis dias. O governo russo reagiu como ao tempo dos antigos generais, ou seja, com rapidez e brutalidade.

A dupla Putin-Medvedev esperava a invasão na Ossétia e já contavam com um plano de reação e desmoralização do presidente Mikhail Saakashvili.

Para ter idéia, as tropas, de pronto, invadiram a Geórgia e controlaram Gori, Santrédia e Senaki, ou melhor , tomaram conta de todas as vias de acesso à Geórgia.

Com o cessar-fogo prometido por Medvedev, a Rússia, depois de receber de “bandeja” do presidente da Geórgia um motivo para intervir naquela região do Cáucaso, deixou claro três pontos:

1. funciona bem o sistema de protetorado, a conferir independência à Ossétia do Sul e à Abcasia. Aliás, ambas já prontas para uma unificação à Rússia: a Ossétia do Norte já integra o território russo.

2. deixa um aviso aos EUA e aos estados que se tornaram independentes da ex-URSS, no sentido de a Rússia estar pronta a recorrer à força bélica para defender os seus interesses.

3. continuará a influir na questão interna da Geórgia, que enfrenta três focos de separatismo: Ossétia do Sul, Abcasia e Adzaristão.

Pode-se concluir, também, que o presidente da Geórgia perdeu, ---apesar da posição estratégia do seu país e do trunfo do oleoduto BTC (Baku-Tbilisi-Ceyhan: duto que leva para o Mediterrâneo o petróleo do mar Cáspio, sem cortar a Rússia e o Irã) e do gasoduto Nabuco, em construção--, todas as chances de o seu país ingressar na NATO. Um país em conflito não cabe na geoestratégia estabelecida pela NATO.

PANO RÁPIDO. Além do efeito “boomerang suportado pela Geórgia em face da temerária aventura do seu presidente, ficou claro, no tabuleiro internacional, que a Rússia voltou a jogar xadrez, enquanto os norte-americanos continuam com as suas partidas de damas. Achar que se poderia invadir a Ossétia, com os jogos olímpicos a distrair atenções e Putin em Pequim, não passou de uma estratégia ridícula e, ao mesmo tempo, trágica em razão do grande número de mortes de civis.

--Wálter Fanganiello Maierovitch--

terça-feira, 29 de julho de 2008

A RAPOSA ESTÁ NO GALINHEIRO!!

Notícia alarmante que recebi via correio eletrônico da Agência Petroleira de Notícias:

Multinacional administra banco de dados da Agência Nacional do Petróleo


Importantes fontes revelaram à AEPET/ Associação de Engenheiros da Petrobrás que a multinacional norte-americana Halliburton, através da sua subsidiária no Brasil, Landmark Digital and Consulting Solutions, está administrando o Banco de Dados de Exploração e Produção (BDEP), da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), sem ter passado por processo licitatório. E mais: as fontes informaram, ainda, que tiveram acesso ao parecer da Procuradoria Geral da República (PROGE), emitido em 2004, no qual exige que serviços prestados no BDEP sejam feitos mediante licitação. Mas, incrivelmente, a ANP até hoje não cumpriu a determinação da PROGE. A Landmark recebe e tem acesso a todos os dados estratégicos de exploração e produção da Petrobrás, além de receber R$ 600 mil por mês. A Halliburton administra o BDEP há 10 anos. Lembramos que a Halliburton, que já foi presidida pelo vice-presidente norte-americano Dick Cheney, atua no Brasil há mais de 40 anos e recentemente colocou um diretor de sua subsidiária em Angola [Nelson Narciso] na direção da Agência Reguladora, para gerenciar os leilões e o BDEP.

Recentemente, Nelson Narciso trouxe para sua diretoria a SDB - Superintendência de Definição de Blocos, que vão a leilão. Ou seja, a Halliburton é quem manda na ANP, sendo responsável pela principais áreas de atuação da Agência Reguladora. A raposa está ditando as regras do galinheiro e parece que as nossas autoridades estão cegas diante de tal gravidade, que precisa ser corrigida o quanto antes. A sociedade brasileira precisa ficar de olho vivo e agir contra tais ilegalidades. Especialistas dão conta de que esse tipo de atividade [administração do BDEP] só existe no Brasil, assim como a jabuticaba. Nessa história toda, vemos que o diretor-geral da ANP, Haroldo Lima, não passa de uma simples `Rainha da Inglaterra` e `garoto propaganda` da entrega das áreas petrolíferas nos leilões, enquanto a Landmark [Halliburton] é paga para acessar dados altamente estratégicos, resultado de décadas de pesquisas realizadas pela Petrobrás, que foi constrangida a cedê-los com o advento da Lei 9478/97. A Halliburton, principal articuladora da invasão ao Iraque, tem executado uma série de atividades de bilhões de dólares, sem licitações. A Halliburton é o principal membro da corporotocracia norte-americana, que junto com CIA, Sistema Financeiro e outras corporações exploram os recursos dos países em desenvolvimento. (Redação)



Fonte: Aepet

Divulgação: Agência Petroleira de Notícias (www.apn.org.br)

Sobre a inserção externa brasileira...

29/7/2008
Remessas de lucros já superam investimentos


As remessas de lucros e dividendos tiveram em junho mais um mês de desempenho acima das expectativas e encerraram o primeiro semestre de 2008 com um montante superior aos ingressos de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED). As remessas das filiais brasileiras para as matrizes no exterior atingiram o recorde de US$ 18,99 bilhões, quase o dobro do valor de igual período de 2007. Enquanto isso, os investimentos estrangeiros somaram US$ 16,70 bilhões. A reportagem é de Fabio Graner e Fernando Nakagawa e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 29-07-2008.

No primeiro semestre de 2007, a situação era diferente: o investimento superava as remessas, com folga. De janeiro a junho do ano passado, o IED de US$ 20,85 bilhões foi mais que duas vezes superior às remessas. Mesmo se forem descontados os cerca de US$ 7 bilhões atípicos em junho de 2007, relativos à fusão das siderúrgicas Arcelor e Mittal e à venda da Serasa, o IED dos seis primeiros meses de 2007 ainda superaria os US$ 9,81 bilhões de remessas de lucros e dividendos.

O chefe do Departamento Econômico (Depec) do Banco Central (BC), Altamir Lopes, explicou que as remessas sobem por causa da combinação de maior lucratividade das empresas, câmbio valorizado e problemas das empresas em suas matrizes, que estimulam remessas maiores das filiais mais lucrativas. Ele disse esperar alguma “acomodação” desse envio de recursos nos próximos meses, pois as multinacionais tradicionalmente remetem mais lucros no primeiro semestre.

Altamir destacou que a maior fatia das remessas e lucros no resultado das contas externas mostra uma mudança estrutural no balanço de pagamentos brasileiro. Para ele, a mudança é positiva. “Lucro só se remete quando tem lucro”.

A economista da consultoria LCA Adriana Dupita destacou que, além dos fatores mencionados por Altamir, as remessas de lucros refletem a maior internacionalização da economia brasileira. Para ela, a tendência é que o ritmo de remessas se desacelere a partir deste semestre. Ela prevê neste ano saídas de US$ 34 bilhões e, em 2009, de US$ 26,8 bilhões.

Dados do BC mostram que entre os setores que mais remetem lucros estão os que enfrentam dificuldades em seus países de origem. É o caso do automotivo e de serviços financeiros, com, respectivamente, US$ 2,76 bilhões e US$ 2,40 bilhões no 1º semestre de 2008.

Dois países que têm sido mais atingidos pela crise financeira encabeçam a lista dos principais destinos das remessas: Estados Unidos e Espanha.
Juros elevados atraem capital de curto prazo


A elevação dos juros no Brasil, que deve prosseguir nos próximos meses, voltou a atrair massivamente capitais estrangeiros de curto prazo. Em julho, a três dias do fim do mês, já ingressaram US$ 3,227 bilhões dirigidos a aplicações de renda fixa, sobretudo a compra de títulos públicos, segundo dados do Banco Central. É mais do que três vezes os valores observados em junho. A reportagem é de Alex Ribeiro e publicada pelo jornal Valor, 29-07-2008.

Para o BC, essa revoada é, em boa parte, fruto da realocação de carteiras - os investidores resgataram recursos aplicados em ações no país (US$ 3,495 bilhões) para aplicá-los em renda fixa.


Juros altos: 'Eles vêm para cá e fazem uma farra. Essa trajetória não é sustentável', avalia economista


O professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP) Simão David Silber está pessimista com a velocidade de deterioração das contas externas brasileiras. “No curto prazo, é financiável, mas tenho dúvidas daqui a dois ou três anos”, afirmou ao Estado. A reportagem e a entrevista é de Leandro Modé e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 29-07-2008.

Eis a entrevista.

O déficit em conta corrente preocupa?

Claro. O problema não é ter déficit, mas a trajetória é fulminante. Nos primeiros seis meses do ano passado, houve superávit de US$ 2,4 bilhões. Isso foi substituído por um déficit de US$ 17,4 bilhões. É um mergulho no precipício. O governo diz que não é problema por causa do que entrou no País como investimento estrangeiro direto: US$ 16 bilhões no semestre. Mas esse cálculo é meio maroto, pois as empresas brasileiras investiram no exterior US$ 8,5 bilhões. Ou seja, o saldo líquido não é US$ 16 bilhões. O que, então, tem segurado o balanço de pagamentos? O diferencial da taxa de juros brasileira com o exterior. Isso fez a conta de capital ser superavitária no semestre em US$ 40,7 bilhões. Essa trajetória, portanto, não é sustentável no longo prazo e sua forma de correção não está disponível no momento porque o governo não quer cortar gastos. Quando isso ocorre, sobra para o Banco Central o trabalho sujo de, sozinho, tentar segurar a inflação. Daí põe o juro lá em cima. Por arbitragem, entra dinheiro aqui, o que valoriza o real, piora as exportações e faz crescer muito as importações. Nos últimos 12 meses, a importação cresceu acima de 40% e a exportação, 18%. No curto prazo, há funding para financiar. Num prazo maior, 2 ou 3 anos, tenho seriíssimas dúvidas.

O fato de o País ter hoje um sistema de câmbio flutuante não ameniza essa tendência?

Esse argumento só funcionaria se o juro não fosse tão alto. Veja o que ocorre hoje: o déficit externo está aí, grandão, e mesmo assim o real continua se valorizando.

O juro alto, então, impede o funcionamento adequado do sistema de câmbio flutuante?

Na direção de uma desvalorização do real, sim. Na medida em que o BC sinalizou que manterá os juros muito altos neste ano e no ano que vem, se dá um horizonte para o aplicador. Eles vêm para cá e fazem uma farra. Em algum momento, o risco é a expectativa do aplicador mudar. Essas coisas ocorrem de uma maneira que na literatura chamamos de overshooting (sobreimpulso). Se daqui um ano, um ano e meio, o mercado financeiro se der conta de que a trajetória do real, daquele instante para frente, será de desvalorização, tentará antecipar isso mandando dinheiro para fora. Ou seja, de uma hora para a outra, vai estourar o câmbio. Não vai ser gradual. No curto prazo, o câmbio depende basicamente do mercado financeiro. O movimento financeiro é muito maior do que o comercial. Hoje, a proporção é de US$ 3 para US$ 1. O Brasil não está exportando mais. A receita de exportação só está crescendo porque o preço das commodities ainda está subindo. Se a desaceleração mundial for mais intensa, pode haver um impacto sobre os preços das commodities. Aí não tenha dúvidas: o real vai desvalorizar.

Como o sr. vê a recente queda de preço das commodities?

Para nós, o mais importante são as commodities alimentícias, que dependem muito mais da demanda da China, da Índia e de outros países em desenvolvimento. Nas últimas semanas, esse movimento de queda foi concentrado no petróleo e nas commodities metálicas. Mas as agrícolas podem cair 10%, 15%.

Isso aumentaria nosso déficit em conta corrente?

Provavelmente, sim. Se a tendência de preço for de queda, isso vai afetar nossa trajetória de câmbio. O que o governo faria nesse caso? Na minha opinião, interviria no mercado para evitar uma desvalorização acentuada do real, que colocaria mais lenha na fogueira da inflação. O câmbio, hoje, ajuda no controle da inflação.

Esses mais de US$ 200 bilhões de reservas dão ao governo boa capacidade para intervir no câmbio?

No curto prazo, sim. No longo, não faz refresco. Os estrangeiros, entre capital fixo, dinheiro em Bolsa, títulos públicos, etc, têm mais de US$ 500 bilhões aqui. Além disso, os brasileiros podem mandar dinheiro para fora. Ou seja, em um eventual pânico, poderia sair cerca de US$ 1 trilhão. US$ 200 bilhões não fazem cócegas. Não creio que isso ocorrerá, mas o fato é que não compramos o seguro definitivo.

O que seria um seguro definitivo?

Ter reservas extremamente elevadas. US$ 200 bilhões é muito bom, mas, dado o tamanho do mercado financeiro, é pouco.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Mais da mídia... ou do mesmo...

Original em http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=4022

MÍDIA BABA NA GRAVATA

Por Mario Augusto Jakobskind

O imortal Nelson Rodrigues usava uma expressão que hoje se aplica ao esquema da mídia conservadora, sobretudo O Globo: “babar na gravata”, no caso, de ódio. É o que acontece neste momento contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Na última semana, o jornal de maior circulação no Rio de Janeiro se superou em matéria de manipulação da informação.

Na edição de 24 de julho de 2008, O Globo aparecia nas bancas com a manchete “Líder do MST apóia candidato de curral eleitoral da Rocinha”. O mencionado é José Rainha, um ex-militante do MST, que não representa mais este movimento social, o que é publico e notório. O Globo “informava” (só pode ser entre aspas, pois o certo seria dizer manipulava) que “o líder do MST, que há anos comanda invasões de terra em São Paulo, disse que incentivou a candidatura a vereador do presidente da Associação dos Moradores”. O ex-militante do MST é amigo do candidato Claudinho da Academia, que supostamente tem o apoio de Antonio Bomfim Lopes, o Nem, responsável pela venda de drogas na Rocinha que impede a entrada na área de outros candidatos a vereador, segundo o informe do jornal.

Ao mesmo tempo em que O Globo divulgava o vínculo de Rainha com Claudinho, praticamente ignorava na edição do dia 24 uma nota da Executiva Nacional do MST informando que o movimento não participa do processo eleitoral nem apóia candidaturas a prefeito e vereador. Rainha, portanto, agia por conta própria e não representava politicamente o MST.

Se alguém ainda tivesse dúvida da grosseria manipuladora de O Globo, a apresentação na primeira página de uma foto de arquivo com José Rainha segurando uma bandeira do MST, deixava as coisas bem claras. É o caso de perguntar: que estranho critério de um jornal, abastado como O Globo, colocar em manchete de primeira página uma foto de arquivo tirada da gaveta?

Tem mais: na edição de sábado, 26, a mesma foto de Rainha com a bandeira do MST, editada na primeira página no dia 24 como sendo de arquivo, aparecia na página 9 identificada como de 24.07.2008. E sabem mais o quê? Atrás de Rainha aparecia claramente os dizeres “Oscar Niemeyer nosso irmão A Rocinha abraça pelos 100 anos de luta contra as injustiças sociais”. No meio da foto aparece a data de 15 (possivelmente de dezembro de 2007, quando dos 100 anos do arquiteto) junto com “Local CIEP da Curva do...” (o restante está coberto com a foto do tal do Claudinho da Academia).

Como se tudo isso não bastasse, O Globo prosseguia sua baba na gravata afirmando “com ou sem o beneplácito do movimento, a participação de militantes do MST na campanha eleitoral da Rocinha, em defesa do candidato do curral eleitoral da favela, é mais um indício de que ele se converteu numa organização política cujo foco vai muito além da reforma agrária”. Era a resposta ao Departamento Jurídico do MST, só divulgada na edição do dia 26, de que “José Rainha foi afastado do movimento por não se submeter às orientações do MST” e reafirmando que o movimento “não tem vinculação política com candidatos, partidos políticos ou governos de todas as esferas”.

Não satisfeito com o predomínio do esquema do pensamento único, O Globo em seu editorial de 26 de julho mostrava supostos vínculos do MST com o narcotráfico, como as Farc na Colômbia.

Mas os leitores se enganam se imaginam que só O Globo manipula grosseiramente a informação. Na área eletrônica o troféu “baba gravata de ódio” ficou por conta da TV Bandeirantes, que na semana de 21 a 25 de julho de 2008, sob o comando do âncora “é uma vergonha” Boris Casoy, além de só ouvir um dos lados, exatamente figuras críticas ao MST, também insinuou que o MST tem vínculos com as Farc. Casoy tem história e vida pregressa. Embora negue, integrou os quadros do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) nos anos de chumbo, segundo militantes do movimento estudantil daquele período.

Na era Collor, Casoy se deu bem. Antes do confisco geral da Madame Zélia Cardoso de Mello ele tirou dos bancos todas as suas aplicações financeiras. Disse à época que tinha apenas intuído, não contava com nenhuma informação privilegiada. Ora, âncora de noticiário televisivo, o mínimo que a ética jornalística e a fidelidade aos seus telespectadores recomenda, em qualquer época, é tornar pública a “intuição”.

Hoje, Casoy chega até a alterar a fisionomia, muito próximo de babar, quando fala ou comenta sobre o MST. Isto, na verdade, não é jornalismo, mas, sim, “uma vergonha” e exemplo típico de estratégia de pensamento único.

Atenção nas próximas semanas para o acirramento da baba na gravata de ódio a qualquer tipo de organização dos setores de menor poder aquisitivo da sociedade brasileira.