sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Gilmar Mauro: As laranjas da Cutrale e o show

Gilmar Mauro*

disponível em www.kaosenlared.net/noticia/as-laranjas-da-cutrale-o-show

Na região de Capivari, interior de São Paulo, quando alguém exagera,
tem uma expressão que diz: "Pare de Show!"

É patético ver alguns senadores(as) , deputados(as) e outros tantos
"ilustres" se revezarem nos microfones em defesa das laranjas da
Cutrale. Muitos destes, possivelmente, já foram beneficiados com os
"sucos" da empresa para suas campanhas, ou estão de olho para obter
"vitaminas" no próximo pleito. Mas nenhum deles levantou uma folha
para denunciar o grande grilo do complexo Monções. As laranjas, e não
poderia ser planta melhor, são a tentativa de justificar o grilo da
Cutrale e de outras empresas daquela região. Passar por cima das
laranjas é passar por cima do grilo e da corrupção que mantém esta
situação há tanto tempo.

Não é a primeira vez que ocupamos este latifúndio. Eu mesmo ajudei a
fazer a primeira ocupação na região, em 1995, para denunciar o grilo e
pedir ao Estado providências na arrecadação das terras para a Reforma
Agrária. Passados quase 10 anos, algumas áreas foram arrecadadas e
hoje são assentamentos, mas a maioria das terras continua sob o
domínio de grandes grupos econômicos. E mais, a Cutrale instalou-se lá
há 4 ou 5 anos, sabendo que as terras eram griladas e, portanto, com
claro interesse na regularização das terras a seu favor. Para tanto,
plantou laranjas! Aliás, parece ter plantado um laranjal em parte do
Congresso Nacional e nos meios de comunicação. O que não é nenhuma
novidade!

Durante a nossa marcha Campinas-São Paulo, realizada em agosto, um
acidente provocou a morte da companheira Maria Cícera, uma senhora que
estava acampada há 9 anos lutando para ter o seu pedaço de terra e
morreu sem tê-lo. Esta senhora estava acampada na região do grilo, mas
nenhum dos ilustres defensores das laranjas pediu a palavra para
denunciar a situação. Nenhum dos ilustres fez críticas para denunciar
a inoperância do Executivo ou Judiciário, em arrecadar as terras que
são da União para resolver o problema da Dona Cícera e das centenas de
famílias que lutam por um pedaço de terra naquela região, e das outras
milhares de pessoas no país.

Poucos no Congresso Nacional levantam a voz para garantir que sejam
aplicadas as leis da Constituição que falam da

Função Social da Terra:
a) Produzir na terra;
b) Respeitar a legislação ambiental e
c) Respeitar a legislação trabalhista.

Não preciso delongas para dizer que a Constituição de 1988 não foi
cumprida. E muitos falam de Estado Democrático de Direito!

Para quem? Com certeza estes vêem o artigo que defende a propriedade a
qualquer custo. Este Estado Democrático de Direito para alguns poucos
é o Estado mantenedor da propriedade, da concentração de terras e
riquezas, de repressão e criminalização para os movimentos sociais e
para a maioria do povo.

Para aqueles que se sustentam na/da "pequena política", com microfones
disponíveis em rede nacional, e acreditam que a história terminou, de
fato, encontram nestes episódios a matéria prima para o gozo pessoal
e, com isso, só explicitam a sua pobreza subjetiva. E para eles, é
certo, a história terminou. Mas para a grande maioria, que acredita
que a história continua, que o melhor da história sequer começou,
fazem da sua luta cotidiana espaço de debate e construção de uma
sociedade mais justa.

Acreditam ser possível dar função social à terra e a todos os recursos
produzidos pela sociedade. Lutam para termos uma agricultura que
produza alimentos saudáveis em benefício dos seres humanos sem
devastação ambiental. Querem e, com certeza terão, um mundo que
planeje, sob outros paradigmas que não os do lucro e da mercadoria, a
utilização das terras e dos recursos naturais para que as futuras
gerações possam, melhor do que hoje, viver em harmonia com o meio
ambiente e sem os graves problemas socias.

A grande política exige grandes homens e mulheres, não os diminutos
políticos - não no sentido do porte físico - da atualidade; a grande
política exige grandes projetos e uma subjetividade rica - não no
sentido material - que permita planejar o futuro plantando as sementes
aqui e agora. Por mais otimista que sejamos, é pouco provável
visualizar que "laranjas" possam fazer isso.

Aliás, é nas crises, é nos conflitos que se diferencia homens de
ratos, ou, laranjas de homens.

Empresário José Luiz Cutrale

Grileiro de terras da União. Detesta ser fotografado,

*Gilmar Mauro é integrante da coordenação nacional do MST.

O que diz a CPT...

Mais uma vez mídia e ruralistas investem contra o MST


A Coordenação Nacional da CPT vem a público para manifestar sua
estranheza diante do "requentamento" por toda a grande mídia de um
fato ocorrido na segunda feira da semana passada, 28 de setembro, e
que foi noticiado naquela ocasião, mas que voltou com maior destaque,
uma semana depois, a partir do dia 5 de outubro até hoje.

Trata-se do seguinte: no dia 28 de setembro, integrantes do MST
ocuparam a Fazenda Capim, que abrange os municípios de Iaras, Lençóis
Paulista e Borebi, região central do estado de São Paulo. A área faz
parte do chamado Núcleo Monções, um complexo de 30 mil hectares
divididos em várias fazendas e que pertencem à União. A fazenda Capim,
com mais de 2,7 mil hectares, foi grilada pela Sucocítrico Cutrale,
uma das maiores empresas produtora de suco de laranja do mundo, para a
monocultura de laranja. O MST destruiu dois hectares de laranjeiras
para neles plantar alimentos básicos. A ação tinha por objetivo chamar
a atenção para o fato de uma terra pública ter sido grilada por uma
grande empresa e pressionar o judiciário, já que, há anos, o Incra
entrou com ação para ser imitido na posse destas terras que são da
União.

As primeiras ocupações na região aconteceram em 1995. Passados mais de
10 anos, algumas áreas foram arrecadadas e hoje são assentamentos. A
maioria das terras, porém, ainda está nas mãos de grandes grupos
econômicos. A Cutrale instalou-se há poucos anos, 4 ou 5 mais ou
menos. Sabia que as terras eram griladas, mas esperava, porém, que
houvesse regularização fundiária a seu favor.

As imagens da televisão, feitas de helicóptero, mostram um trator
destruindo as plantas. As reações, depois da notícia ser novamente
colocada em pauta, vieram inclusive de pessoas do governo, mas,
sobretudo, de membros da bancada ruralista que acusam o movimento de
criminoso e terrorista.

A quem interessa a repetição da notícia, uma semana depois?

No mesmo dia da ação dos sem-terra foi entregue aos presidentes do
Senado e da Câmara, um Manifesto, assinado por mais de 4.000 pessoas,
entre as quais muitas personalidades nacionais e internacionais,
declarando seu apoio ao MST, diante da tentativa de instalação de uma
CPMI para investigar os repasses de recursos públicos a entidades
ligadas ao Movimento. Logo no dia 30, foi lido em plenário o
requerimento para sua instalação, que acabou frustrada porque mais de
40 deputados retiraram seu nome e com isso não atingiu o número
regimental necessário. A bancada ruralista se enfureceu.

A ação do MST do dia 28, que ao ser divulgada pela primeira vez não
provocara muita reação, poderia dar a munição necessária para
novamente se propor uma CPI contra o MST. E numa ação articulada entre
os interesses da grande mídia, da bancada ruralista do Congresso e dos
defensores do agronegócio, se lançaram novamente as imagens da
ocupação da fazenda da Cutrale.

A ação do MST, por mais radical que possa parecer, escancara aos olhos
da nação a realidade brasileira. Enquanto milhares de famílias sem
terra continuam acampadas Brasil afora, grandes empresas praticam a
grilagem e ainda conseguem a cobertura do poder público.

Algumas perguntam martelam nossa consciência:

Por que a imprensa não dá destaque à grilagem da Cutrale?

Por que a bancada ruralista se empenha tanto em querer destruir os
movimentos dos trabalhadores rurais? Por que não se propõe uma grande
investigação parlamentar sobre os recursos repassados às entidades do
agronegócio, ao perdão rotineiro das dívidas dos grandes produtores
que não honram seus compromissos com as instituições financeiras?

Por que a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), declarou, nas eleições ao
Senado em 2006, o valor de menos de oito reais o hectare de uma área
de sua propriedade em Campos Lindos, Tocantins? Por que por um lado, o
agronegócio alardeia os ganhos de produtividade no campo, o que é uma
realidade, e se opõe com unhas e dentes á atualização dos índices de
produtividade? Por que a PEC 438, que propõe o confisco de terras onde
for flagrado o trabalho escravo nunca é votada? E por fim, por que o
presidente Lula que em agosto prometeu em 15 dias assinar a portaria
com os novos índices de produtividade, até agora, mais de um mês e
meio depois, não o fez?

São perguntas que a Coordenação Nacional da CPT gostaria de ver respondidas.


Goiânia, 7 de outubro de 2009.

Coordenação Nacional da CPT

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Sobre as ações do MST em SP (Por Dr. Rosinha)

Do blog Vi o Mundo de Luiz Carlos Azenha (disponível em
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/o-deputado-rosinha-e-o-cartel-da-laranja/)

O deputado Rosinha e o cartel da laranja

Atualizado e Publicado em 07 de outubro de 2009 às 20:47

do deputado Rosinha, do PT-PR:

A bancada ruralista no Congresso Nacional defende o cartel
internacional das indústrias de suco de laranja e faz uso de um fato
isolado para tentar ressuscitar um pedido de CPI contra o MST já
rejeitado pela maioria do Legislativo.

A avaliação é do deputado federal Dr. Rosinha (PT-PR), coordenador
nacional da Frente Parlamentar da Terra, ao comentar o episódio
ocorrido na fazenda Santo Henrique, na divisa dos municípios de Iaras,
Lençóis Paulista e Borebi (SP), em que trabalhadores rurais ligados ao
MST derrubaram pés de laranja durante uma ocupação.

"O que os ruralistas querem é requentar a CPI do ódio contra o MST,
ressuscitar um pedido já rejeitado pelo Congresso, a partir de um
episódio isolado", afirma Dr. Rosinha. "Ninguém defende a derrubada de
árvores, mas, antes de qualquer análise leviana, é preciso avaliar
quem é quem nessa história e o total de árvores cultivadas pela
empresa."

Conforme dados obtidos pela assessoria do mandato do deputado Dr.
Rosinha, a Sucocítrico Cutrale Ltda., dona da fazenda, teria mais de
20 milhões de pés de laranja distribuídos em mais de 40 fazendas de
sua propriedade no Brasil, além de outras unidades na Flórida (EUA).

Ao se tomar por base a estimativa da PM de São Paulo, que divulgou o
número de 7 mil pés derrubados —o MST sustenta que o número foi menor,
inferior a três mil—, chega-se ao percentual de 0,7% das árvores da
fazenda, que totalizam um milhão, ou então de 0,035% dos cerca de 20
milhões de pés de laranja das fazendas da Cutrale em território
nacional.

Em protesto contra a monocultura, o movimento plantaria feijão no
lugar da laranja.

Os herdeiros da família Cutrale detêm cerca de 30% do mercado global
de suco da fruta. Entre seus clientes estão companhias como Parmalat,
Nestlé e Coca-Cola. A família seria uma das mais ricas do país, com
fortuna acumulada equivalente a 5 bilhões de dólares.

Emissoras de TV e jornais citaram o vídeo como se fosse produção de um
cinegrafista amador. Ocorre que as imagens foram captadas a partir de
um helicóptero. "Um cinegrafista amador a bordo de um helicóptero?",
questiona Dr. Rosinha. "Pelo que apuramos, foi a PM paulista que fez a
gravação e a repassou à mídia, em mais uma tentativa de criminalização
da luta do MST por uma distribuição mais justa da terra."

Cartel

Alvo de pelo menos cinco processos no Cade (Conselho Administrativo de
Defesa Econômica), órgão encarregado de preservar a concorrência, a
Cutrale é líder de um cartel formado por quatro empresas que dominam o
setor.

Duas delas são multinacionais de outros países: Citrosuco, do grupo
holandês Fischer; e Coinbra-Frutesp, do grupo francês Louis Dreyfus. A
Cutrale e a Citrovita, do grupo Votorantin, são as outras duas.

Essas quatro indústrias detêm mais de 50 milhões de pés de laranja, o
equivalente a 30% das 170 milhões de árvores produtoras de laranja do
Estado de São Paulo, e impõem seus preços aos demais produtores.

Os donos da Cutrale são réus em processos por crime de formação de
cartel e posse ilegal de armas de fogo. Armas e munições foram
encontradas em seu gabinete durante cumprimento de mandado de busca e
apreensão em 2006. O processo que trata do crime de cartel tramita na
9ª Vara Criminal de São Paulo.

Grilagem

Há cerca de uma década o Incra (Instituto Nacional de Reforma Agrária)
reivindica na Justiça a posse da fazenda Santo Henrique. Conforme o
órgão, em 1919 a União adquiriu área de aproximadamente 50 mil
hectares de terras particulares para promover um projeto de
colonização no interior.

Apenas partes das terras foram transferidas. O restante permaneceu em
poder da União, como o caso da propriedade ilegalmente ocupada pela
Cutrale.

Em janeiro de 2008, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou a
tutela antecipada solicitada pelo Incra, mas a ação reivindicatória
segue sua tramitação na 1ª Vara Federal de Ourinhos.

"Como forma de legitimar a grilagem, a Cutrale realizou irregularmente
o plantio de laranja em terras da União", diz trecho de nota da
direção estadual do MST em São Paulo. "A produtividade da área não
pode esconder que a Cutrale grilou terras públicas, que estão sendo
utilizadas de forma ilegal, sendo que, neste caso, a laranja é o
símbolo da irregularidade."

A Cutrale também já foi autuada diversas vezes por impactos ao
ecossistema, poluição ao meio ambiente e lançamento de esgoto sem
tratamento em rios.

O MST calcula que 400 famílias acampadas poderiam ser assentadas na
região. Em todo o estado de São Paulo, 1,6 mil famílias sem-terra
estão acampadas. No país, são 90 mil.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Azenha: Hondura mostra a cara dos nossos democratas...

Do blog do Azenha... (www.viomundo.com.br)

Honduras: A crise é boa, para expor nossos "democratas"

Atualizado em 23 de setembro de 2009 às 19:32 | Publicado em 23 de
setembro de 2009 às 19:21

Existem pontos positivos na cobertura que a mídia brasileira faz dos
acontecimentos em Honduras. O primeiro deles é revelar a completa
ignorância de muitos sobre a América Latina. O segundo é de iluminar o
caráter "democrático" de alguns jornalistas e políticos.

Tive o prazer de conhecer alguma coisa da América Central. Já estive
no Panamá, na Costa Rica, em El Salvador e em Honduras.

Em Honduras fiz reportagens sobre a "guerra do futebol" e sobre a
epidemia de AIDS. Fui a Tegucigalpa e a San Pedro Sula. Viajei pelo
interior. Os militares sempre tiveram papel central na política
hondurenha. Promoveram uma política de extermínio contra os
"campesinos", quando estes aderiram aos movimentos populares que em
países vizinhos resultaram em guerras civis (El Salvador e Nicarágua).

Como em outros países da região, os anos 70 e 80 em Honduras foram
marcados por rápida urbanização e por uma explosão das demandas
sociais. A imigração para os Estados Unidos funcionou como válvula de
escape. Depois que os Estados Unidos, no governo Reagan, deram forte
apoio às elites locais na suposta luta anticomunista -- na verdade,
para esmagar movimentos populares --, Washington resolveu adotar uma
política regional de pacificação econômica.

Os americanos promoveram uma área de livre comércio regional. As
maquilas se disseminaram. São as "maquiladoras", ou maquiadoras,
empresas que tiram proveito da área de livre comércio para montar
produtos que recebem vantagem tarifária para ingressar no mercado dos
Estados Unidos. Os capitais vieram da Ásia, especialmente de Taiwan e
da Coréia do Sul. Qual é o papel dos centro-americanos nessa história?
O de mão-de-obra barata. Qual é o papel das elites locais? Além de se
associar ao capital estrangeiro para enriquecer, cabe a elas garantir
que os trabalhadores não se sindicalizem e não obtenham conquistas
sociais. As condições de trabalho nas maquiladoras são pré-revolução
industrial.

A equação era essa: os homens imigravam para os Estados Unidos para
fazer o papel de derrubar o salário dos trabalhadores americanos. As
mulheres serviam às maquiladoras em condições sub-humanas.

Porém, com a crise econômica nos Estados Unidos, esse modelo ruiu.
Muitos pais de família hondurenhos perderam o emprego nos Estados
Unidos. A caça aos imigrantes promovida pelos republicanos também os
afetou. Nas economias dependentes de remessa de dólares a crise se
aprofundou. Manuel Zelaya abandonou antigos aliados em nome de romper
com esse modelo, no qual Honduras entra apenas com o trabalho servil
de seus homens e mulheres.

Portanto, não se trata apenas de dizer que Manuel Zelaya é o
presidente constitucional de Honduras, eleito pela maioria dos
eleitores e que o governo golpista é ilegítimo e ilegal. É importante
expor claramente quem são os golpistas, a quem servem: àqueles que
querem manter os hondurenhos numa servidão pré-Getúlio Vargas. Só
assim para expor a elite brasileira da maneira como ela precisa ser
exposta: como representação verde-amarela de interesses parecidos com
aqueles representados pelos afrikâners, que inventaram um sistema
sofisticado para fazer o mesmo que a elite hondurenha faz: manter
parte da população -- no caso da África do Sul, os negros; no caso de
Honduras, os "campesinos" -- na servidão.

domingo, 20 de setembro de 2009

Nota do MST sobre CPI

A força das nossas mobilizações e o avanço das conquistas dos
trabalhadores Sem Terra causaram uma forte reação do latifúndio, do
agronegócio, da mídia burguesa e dos setores mais conservadores da
sociedade brasileira contra os movimentos sociais do campo, em
especial o MST, principalmente por conta do anúncio da atualização dos
índices de produtividade da terra pelo governo Lula.

Denunciamos que a CPI contra o MST é uma represália às nossas lutas e
à bandeira da revisão dos índices de produtividade. Para isso, foi
criado um instrumento político e ideológico para os setores mais
conservadores do país contra o nosso movimento. Essa é a terceira CPI
instalada no Congresso Nacional contra o MST nos últimos cinco anos.
Além disso, alertamos que será utilizada para atingir os setores mais
comprometidos com os interesses populares no governo federal.

A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), os deputados federais Ronaldo Caiado
(DEM-GO) e Onyx Lorenzoni (DEM-RS), líderes da bancada ruralista no
Congresso Nacional, não admitem que seja cumprida a Constituição
Federal de 1988 e a Lei Agrária, de fevereiro de 1993, assinada pelo
presidente Itamar Franco, que determina que "os parâmetros, índices e
indicadores que informam o conceito de produtividade serão ajustados,
periodicamente, de modo a levar em conta o progresso científico e
tecnológico da agricultura e o desenvolvimento regional".

Os parâmetros vigentes para as desapropriações de áreas rurais têm
como base dados do censo agrário de 1975. Em 30 anos, a agricultura
passou por mudanças tecnológicas e químicas que aumentaram a
produtividade média por hectare. Por que o agronegócio tem tanto medo
da mudança nos índices?

A atualização dos índices de produtividade da terra significa nada
mais do que cumprir a Constituição Federal, que protege justamente
aqueles que de fato são produtores rurais. Os proprietários rurais que
produzem acima da média por região e respeitam a legislação
trabalhista e ambiental não poderão ser desapropriados, assim como os
pequenos e médios proprietários que possuem menos de 500 hectares,
como determina a Constituição.

A revisão terá um peso pequeno para a Reforma Agrária. A Constituição
determina que, além da produtividade, sejam desapropriadas também
áreas que não cumprem a legislação trabalhista e ambiental, o que vem
sendo descumprido pelo Estado brasileiro. Mesmo assim, o latifúndio e
o agronegócio não admitem essa mudança.

Os setores mais conservadores da sociedade não admitem a existência de
um movimento popular com legitimidade na sociedade, que organiza
trabalhadores rurais para a luta pela Reforma Agrária e contra a
pobreza no campo. Em 25 anos, tentaram destruir o nosso movimento por
meio da violência de grupos armados contratados por latifundiários, da
perseguição dos órgãos repressores do Estado e de setores do Poder
Judiciário, da criminalização pela mídia burguesa e até mesmo com
CPIs.

Apesar disso, resistimos e vamos continuar a organizar os
trabalhadores pobres do campo para a luta pela Reforma Agrária, um
novo modelo agrícola, direitos sociais e transformações estruturais no
país que criem condições para o desenvolvimento nacional com justiça
social.

SECRETARIA NACIONAL DO MST
16 de setembro de 2009

sábado, 5 de setembro de 2009

Veja e MST, por Altamiro Borges

MST e as ações criminosas da revista Veja

por Altamiro Borges, em seu blog

Os editores da revista Veja são de um cinismo depravado. Na edição desta semana, este panfleto da direita colonizada estampou mais uma capa com ataques ao MST. A manchete provocadora: "Abrimos o cofre do M$T". A foto montagem: um boné da organização com dólares e reais. A chamada: "Como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra desvia dinheiro público e verbas estrangeiras para cometer seus crimes". Na "reporcagem" interna, nenhuma entrevista com lideranças dos sem-terra e nenhuma visita às escolas e assentamentos produtivos do MST.

Como arapongas ilegais, ela se jacta de que "teve acesso às movimentações bancárias de quatro entidades ligadas aos sem-terra. Elas revelam como o governo e organizações internacionais acabam financiando as atividades criminosas do movimento". As quatro entidades – Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca), Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária (Concrab), Centro de Formação e Pesquisas Contestado (Cepatec) e Instituto Técnico de Estudos Agrários e Cooperativismo (Itac) – "receberam 43 milhões de reais em convênios com o governo entre 2003 e 2007", resmunga a revista da Editora Abril, que sempre saqueou os cofres públicos.

Uma "reporcagem" interesseira

O novo ataque ao MST não é gratuito. Ele ocorre poucos dias após a jornada nacional de luta por mais verbas para a reforma agrária e pela atualização dos índices de produtividade, usados como parâmetros legais para a desapropriação de terras. Diante da sinalização do governo Lula de que atenderia as justas reivindicações, a revista Veja resolveu sair em defesa dos latifundiários e dos barões do agronegócio. Não há nenhuma investigação jornalística sobre as premiadas iniciativas educativas e sociais do MST. Apenas opiniões preconceituosas para criminalizar o movimento. Seu objetivo é asfixiar financeiramente o MST, fragilizando a heróica luta pela reforma agrária.

Daí a "reporcagem" esbravejar, num tom fascistóide, que "o MST é movido por dinheiro, muito dinheiro, captado basicamente dos cofres públicos e junto às entidades internacionais. Ao ocupar ministérios, invadir fazendas, patrocinar um confronto com a polícia, o MST o faz com dinheiro de impostos pagos pelos brasileiros e com o auxílio de estrangeiros que não deveriam se imiscuir em assuntos do país". A matéria também serve de palanque para o tucano José Serra. "Aliados históricos do PT, os sem-terra encontraram no governo Lula uma fonte inesgotável de recursos para subsidiar suas atividades". E ainda estimula intrigas. "O governo Lula agora experimenta o gosto da chantagem de uma organização bandida que cresceu sob seus auspícios".

Resposta corajosa do MST

O MST já respondeu com altivez às provocações. "Não há nenhuma novidade na postura política e ideológica desses veículos, que fazem parte da classe dominante e defendem os interesses do capital financeiro, dos bancos, do agronegócio e do latifúndio, virando de costas para os problemas estruturais da sociedade e para as dificuldades do povo brasileiro. Desesperados, tentam requentar velhas teses de que o movimento vive à custa de dinheiro público. Aliás, esses ataques vêm justamente de empresas que vivem de propaganda e de recursos públicos ou que são suspeitas de benefícios em licitações do governo de São Paulo, como a Editora Abril".

Quanto aos ataques, a nota é elucidativa. "Em relação às entidades que atuam nos assentamentos de reforma agrária, que são centenas trabalhando em todo o país, defendemos a legitimidade dos convênios com os governos federal e estaduais e acreditamos na lisura do trabalho realizado. Essas entidades estão devidamente habilitadas nos órgãos públicos, são fiscalizadas e, inclusive, sofrem perseguições políticas do TCU (Tribunal de Contas da União), controlado atualmente por filiados do PSDB e DEM. Elas desenvolvem projetos de assistência técnica, alfabetização de adultos, capacitação, educação e saúde em assentamentos rurais, que são um direito dos assentados e um dever do Estado, de acordo com a Constituição".

Um negócio de 719 milhões de reais

Em mais este ataque colérico, a revista Veja prova que é imoral e cínica. Tudo que publica serve a objetivos políticos precisos, mas embalados na manipulação jornalística. De fato, muita coisa precisa ser investigada no país. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a mídia tornou-se uma urgência. No caso da Editora Abril, que condena o "auxílio de estrangeiros que se imiscuem em assuntos do país", seria útil averiguar sua própria origem, quando o empresário estadunidense Victor Civita se mudou para São Paulo, em 1949, trazendo na bagagem um sinistro acordo com a Disney. Não é para menos que muitos o acusaram de "agente do império" e de servidor da CIA.

Quanto aos recursos públicos, seria necessário apurar as compras milionárias do governo tucano de José Serra das publicações da Abril. O Ministério Público Federal inclusive já abriu processo para investigar o caso suspeito. No embalo, poderia averiguar as recentes denúncias do jornalista Carlos Lopes, editor do jornal Hora do Povo. No artigo intitulado "O assalto do grupo Abril aos cofres públicos na venda de livros do MEC", com base em dados do Portal da Transparência, ele mostra que "nos últimos cinco anos, o Ministério da Educação repassou ao grupo Abril a quantia de R$ 719.630.139,55 para compra de livros didáticos. Foi o maior repasse de recursos públicos destinados a livros didáticos dentre todos os grupos editoriais do país".

A urgência da CPI da mídia

"Nenhum outro recebeu, nesse período, tanto dinheiro do MEC. Desde 2004, o grupo da Veja ficou com mais de um quinto dos recursos (22,45%) do MEC para compra de livros didáticos... O espantoso é que até 2004 o grupo Civita não atuava no setor de livros didáticos. Neste ano, o grupo adquiriu duas editoras – a Ática e a Scipione. Por que essa súbita decisão de passar a explorar os cofres públicos com uma inundação de livros didáticos? Evidentemente, porque existe muito dinheiro nos cofres públicos... O MEC, infelizmente, está adotando uma política de fornecer dinheiro público para que o Civita sustente o seu panfleto – a revista Veja".

"Exatamente essa malta, cínica e pendurada no dinheiro público, acusa o MST de ter recebido, de 2003 a 2007, R$ 47 milhões em alguns convênios com o governo federal... Já o Civita recebeu só do MEC, entre 2004 e 2008, R$ 719 milhões, isto é, 17 vezes mais do que o MST – e não foi para trabalhar, mas para empurrar livros didáticos duvidosos, e a preço de ouro", critica Carlos Lopes. Como se observa, uma CPI da mídia é urgente.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Ivan Pinheiro: Peru e Irã vistos pelo mesmo olhar


 

O PERU E O IRÃ VISTOS PELO MESMO OLHAR IMPERIALISTA

 

Ivan Pinheiro

 

Não há comparação melhor para denunciar a manipulação da mídia e a hipocrisia dos governos dos países imperialistas do que os posicionamentos de ambos com relação a dois fatos recentes: a resistência indígena no Peru e as manifestações no Irã.

 

O Peru é governado por Allan Garcia, aliado incondicional dos Estados Unidos, com quem firmou um Tratado de Livre Comércio, cujo objetivo é o saque das riquezas minerais da selva amazônica peruana. Neste caso, a mídia diz que o assassinato de dezenas de indígenas foi produto de conflitos provocados por manifestações violentas destes contra as leis. Com exceção de Evo Morales e Hugo Chávez - que se solidarizaram com os indígenas - nenhum chefe de Estado se pronunciou a respeito.

 

O mundo burguês fingiu que não viu! Nenhuma foto que revelasse a brutalidade da repressão foi exibida na imprensa burguesa.

 

Já o Irã é o primeiro país da fila de espera para ser agredido pela máquina de guerra norte-americana. Afinal, seu governo insiste em dominar a tecnologia nuclear, para se defender do arquiinimigo dos povos da região, o Estado de Israel, detentor da bomba atômica e cabeça de ponte dos Estados Unidos no Oriente Médio. Os iranianos já possuem mísseis que podem alcançar Israel. Acusa-se também o Irã de ajudar a resistência armada palestina e libanesa. O país só não foi agredido até agora por falta de tropas, hoje atoladas em aventuras militares no Iraque e no Afeganistão.

 

Contrastando com o silêncio sobre os indígenas peruanos, os chefes de Estado dos países imperialistas têm sido loquazes sobre o Irã. Sarkosy e Ângela Merkel - em cujos países os trabalhadores e estudantes são reprimidos - condenaram veemente a "violência contra os manifestantes iranianos". Obama manteve silêncio sepulcral diante das atrocidades israelenses na Faixa de Gaza e, já como Presidente, referiu-se ao bombardeio que levou à morte de centenas de civis na fronteira Paquistão/Afeganistão como "efeito colateral". Já sobre o Irã, se declarou "profundamente perturbado com a violência que viu na televisão".

 

A manipulação da mídia é tão grosseira que os jornais escondem as manifestações a favor do presidente iraniano, algumas maiores que as da oposição. Por outro lado, passa-se a impressão de que as manifestações da oposição são contra a política externa iraniana. Certamente elas têm a ver com insatisfações diferenciadas - sobretudo em setores da classe média e da burguesia -, como os impactos da crise econômica, a queda do preço do petróleo, a inflação, a questão dos direitos civis e aspirações por um Estado laico ou pela ocidentalização dos costumes e do consumo.

 

A desestabilização do Irã é parte dos planos imperialistas. Cumprido o objetivo de se apropriar das reservas de petróleo do Iraque, os Estados Unidos preparam uma falsa retirada deste país, onde deixarão um governo títere, forças repressivas armadas e dirigidas por militares ianques e poderosas bases militares, que não existiam antes da invasão. Enquanto isso, vão satanizando e deslegitimando as próximas vítimas.

 

Esta "saída" do Iraque permitirá a liberação de tropas para os novos planos belicistas: ocupar parte do Paquistão, a pretexto de derrotar os talibãs, e atacar o Irã, o mais cobiçado objeto de desejo do imperialismo, não só pela ajuda às resistências armadas no Oriente Médio mas por sua posição geopolítica estratégica. O país fica exatamente entre o Iraque e o Afeganistão, com os quais tem as maiores fronteiras; além disso, é banhado pelo Golfo Pérsico e o Mar Cáspio.

 

Como internacionalistas, temos que ser solidários com o povo iraniano frente ao imperialismo. Mas não podemos nos iludir com o regime que vigora no país, muito menos glamourizá-lo. De fato, seu antiimperialismo ajuda a fragilizar os principais inimigos da humanidade. Isto devemos valorizar. Mas não nos esqueçamos de que se trata de um antiimperialismo nacionalista de direita.

 

O fundamentalismo do regime dos aiatolás não tem nada a ver com os ideais socialistas e libertários. Trata-se de um regime conservador, machista, homófobo, anticomunista. O Partido Comunista Iraniano (TUDEH) foi colocado na ilegalidade e seus membros são perseguidos. Nesse sentido, não se difere da maioria dos Estados árabes conservadores e pró-imperialistas, a não ser pelo fato de os iranianos serem persas. Aliás, alguém já viu alguma campanha midiática pela "democracia" nos Estados árabes dirigidos por oligarquias monárquicas aliadas dos Estados Unidos, que não se submetem a qualquer eleição?

 

Mas de forma nenhuma a esquerda pode se iludir ou se omitir diante da campanha de satanização do Irã, já há algum tempo em curso. Ela é a ante sala da agressão militar. Já há muitos indícios de que estamos diante de um golpe midiático, de guerra psicológica. Mais uma das chamadas "revoluções das cores", desta vez verde. Lembram-se da satanização de Sadam Hussein antes da invasão do Iraque? Cadê as armas de destruição em massa?

 





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Gustavo Souto de Noronha (Nasa)
http://www.opiniaodivergente.blogspot.com

"Ficais horrorizados por querermos abolir a propriedade privada. Mas na vossa sociedade atual a propriedade privada está abolida para nove décimos dos seus membros. É precisamente porque não existe para esses nove décimos que ele existe para vós. Reprovai-nos, pois, o querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir na condição da imensa maioria da sociedade ser privada de qualquer propriedade.
Numa palavra, acusais-nos de querer abolir a vossa propriedade. Na verdade, é isso que queremos."

"Objetou-se ainda que, com a abolição da propriedade privada cessaria toda a atividade e uma preguiça geral se apoderaria do mundo.
Se assim fosse, já há muito tempo que a sociedade burguesa teria sucumbido à ociosidade, visto que, nesta sociedade, os que trabalham não ganham e os que ganham não trabalham.".

Marx e Engels (Manifesto do Partido Comunista)